terça-feira, 21 de dezembro de 2010

"Liberdade" - Álvaro de Campos



A liberdade, sim, a liberdade!
A verdadeira liberdade!
Pensar sem desejos nem convicções.
Ser dono de si mesmo sem influência de romances!
Existir sem Freud nem aeroplanos,
Sem cabarets, nem na alma, sem velocidades, nem no cansaço!
A liberdade do vagar, do pensamento são, do amor às coisas naturais
A liberdade de amar a moral que é preciso dar à vida!
Como o luar quando as nuvens abrem
A grande liberdade cristã da minha infância que rezava
Estende de repente sobre a terra inteira o seu manto de prata para mim…
A liberdade, a lucidez, o raciocínio coerente,
A noção jurídica da alma dos outros como humana,
A alegria de ter estas coisas, e poder outra vez
Gozar os campos sem referência a coisa nenhuma
E beber água como se fosse todos os vinhos do mundo!
Passos todos passinhos de criança…
Sorriso da velha bondosa…
Apertar da mão do amigo sério…
Que vida que tem sido a minha!
Quanto tempo de espera no apeadeiro!
Quanto viver pintado em impresso da vida!
Ah, tenho uma sede sã. Dêem-me a liberdade,
Dêem-me no púcaro velho de ao pé do pote.
Da casa do campo da minha velha infância…
Eu bebia e ele chiava,
Eu era fresco e ele era fresco,
E como eu não tinha nada que me ralasse, era livre.
Que é do púcaro e da inocência?
Que é de quem eu deveria ter sido?
E salvo este desejo de liberdade e de bem e de ar, que é de mim?

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

«Se a tristeza tivesse tamanho, levantar-me-ia todos os dias consumido numa montanha de tristeza. Se o anseio tivesse língua própria e melodia, ouvirias sinfonias. A única geografia que conheço é a que me leva ao Sul. Do cimo da montanha, a minha visão é tão nítida como a de Zarqa al-Yamama e atravessa as distâncias até às portas de Bagdade e até à tua janela.
O Norte pergunta por ti ao sul, os topos das montanhas perguntam por ti aos edifícios de Bagdade, as nogueiras-pecãs perguntam por ti às palmeiras, mas não há respostas. Cubro distâncias, sobrevoo montanhas em busca de uma palavra tua, mas as palavras não chegam e a distância está a matar-me.
Diz-me como encontrar o caminho para o teu coração, e eu irei percorrê-lo. Estou pronto para viajar até ti, dá-me um sinal e eu irei. Não quero mentir-te, podes estar certa de que o que digo é verdade. Sacrificaria a minha vida por ti.»

(Sasson, Jean. "Amor em Terra de Chamas")